A nossa crise

Sempre considerei que, apesar de um povo (português) estúpido, somos um povo com excelentes qualidades. No entanto a classe dirigente não parece estar ao nível e daí advém a crise em que nos encontramos. No livro "Fernando Pessoa, a obra e o homem" por António Quaresma, encontrei um texto onde o poeta exprime esse tipo de preocupações. Por incrível que pareça, nada mudou desde então.

A nossa crise provém, essencialmente, do excesso de civilização dos incivilizáveis. Esta frase, como todas que envolvem contradição, não envolve contradição nenhuma. Eu explico.
Todo o povo se compõe de uma aristocracia e de ele mesmo. Como o povo é um, esta aristocracia e ele mesmo têm uma substância idêntica; manifestam-se porém, diferentemente. A aristocracia manifesta-se como indivíduos, incluindo alguns indivíduos amadores; o povo revela-se como todo ele um indivíduo só. Só colectivamente é que o povo não é colectivo.
O povo português é, essencialmente, cosmopolita.
Nunca um verdadeiro português foi português, foi sempre tudo. Ora ser tudo em um indivíduo é ser tudo; ser tudo em uma colectividade é cada um dos indivíduos não ser nada. Quando a atmosfera da civilização é cosmopolita, como na Renascença, o português pode ser português, pode portanto ser indivíduo, pode portanto ser aristocracia. Quando a atmosfera não é cosmopolita – como no tempo entre o fim da Renascença, e o princípio, em que estamos de uma Renascença nova – o português deixa de poder respirar individualmente. Passa a ser só individualmente. Passa a ser só português. Passa a não poder ser aristocracia. Passa a não passar. (Garanto-lhe que estas frases têm uma matemática íntima).
Ora um povo sem aristocracia não pode ser civilizado. A civilizaão, porém, não perdoa. Por isso esse povo civiliza-se com o que pode arranjar, que é o seu conjunto. E como o seu conjunto é individualmente nada, passa a ser tradicionalista e a imitar o estrangeiro, que são as duas maneiras de não ser nada. É claro que o português, com a sua tendência para ser tudo, forçosamente havia de ser nada de todas as maneiras possíveis. Foi neste vácuo de si próprio que o português abusou de civilizar-se. Está nisto, como lhe disse, a essência da nossa crise.
As nossas crises particulares precedem desta crise geral. A nossa crise política é sermos governados por uma maioria política que não há. A nossa crise moral é que desde 1580 – fim da Renascença em nós e de nós na Renascença – deixou de haver indivíduos em Portugal para haver só portugueses. Por isso mesmo acabaram os portugueses nesta ocasião. Foi então que começou o português à antiga portuguesa, que é mais moderno que o português, e é o resultado de estarem interrompidos os portugueses. A nossa crise intelectual é simplesmente o não termos consciência disso.

Este texto consiste numa entrevista publicada na Revista Portuguesa, nº 23-24, 13-10-1923.

Sobre Sérgio O. Marques

Licenciado em Física/Matemática Aplicada (Astronomia) pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e Mestre em Matemática Aplicada pela mesma instituição, desenvolvo trabalho no PTC (Porto Technical Centre) - Yazaki como Administrador de bases-de-dados. Dentro o meu leque de interesses encontram-se todos os temas afins às disciplinas de Matemática, Física e Astronomia. Porém, como entusiasta, interesso-me por temas relacionados com electrónica, poesia, música e fotografia.
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Uma resposta a A nossa crise

  1. Maria Manuela diz:

    Perdoe-me meter a colherada:  Sem qualquer pretensão filosófica, o português é, e sempre foi, (vejam-se todos os vestígios culturais, linguísticos, arquitectónicos, etc. que há séculos vimos deixando por esse mundo fora, até nos lugaes mais estranhos!).  como ia dizendo, o português sempre foi um cidadão do mundo….por mares nunca dantes navegados, passaram ainda além da Taprobana…
    A crise por que estamos passando não é portuguesa, é mundial!  E essa crise reflecte-se, como não podia deixar de ser, em todos os sectores.
    Ora, o português, como cidadão do mundo, é fatalmente afectado por qualquer crise mundial.
    Não sendo especialista em economia, nem finanças, nem gestão, nem nada disso, limito-me a encarar a situação com uma abordagem extremamente simples, pois não tenho que justificar a nada nem a ninguém o "canudo" da minha especialidade.
    Resumindo, que vai longo o discurso:  a crise do português é igual à crise de todos os povos ditos "civilizados":
    FALTA DE VALORES MORAIS E CÍVICOS, FALTA DE ÉTICA.
    Pois se o exemplo deverá vir sempre de cima….
     
    Este texto é apenas o grito da minha alma!

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