Quando forem 15000 milhões a acender a luz: o mundo em busca de substituto para o petróleo e o carvão

Nos mundos cintilantes dos filmes sobre o futuro, costuma pairar uma luz azulada sobre todos os aparelhos. As portas abrem-se sozinhas e há robots que se encarregam dos trabalhos servis. Naves espaciais deslizam, como por encanto, através do céu estrelado. E o homem só tem de premir botões. Consegue tudo o que quer com um dispêndio de forças, que mal pode ainda tornar-se menor, tocando negligentemente num botão com o indicador da mão direita.
Criar um mundo tecnicamente aperfeiçoado para 15000 milhões de pessoas que possa proporcionar, mesmo só aproximadamente, bem-estar e abundância de uma forma tão automática, põe uma condição inalienável: dispor-se de energia ilimitada.
Quem disponha de energia pode realizar praticamente qualquer desejo. Fazer funcionar máquinas, falar aparelhos, pôr a pensar cérebros electrónicos. A energia é transformável em quase tudo o que o homem necessita para viver. Com o seu auxílio, pode extrair o ferro da rocha, o sal da água do mar e transformar o ar em adubos. A energia é o "abre-te sésamo" das civilizações altamente tecnizadas. Cada americano, por exemplo, deve-lhe a capacidade de trabalho de 85 escravos.
A energia faz com que as próprias utopias deixem de o ser. Actualmente a humanidade serve-se de um conjunto de máquinas é autómatos que produzem um rendimento dinâmico maior do que todos os músculos da humanidade em conjunto. Se conseguirmos aumentar 60 vezes esse rendimento – dizem os peritos americanos – aquele "paraíso técnico" dos filmes sobre o futuro tornar-se-á realizável mesmo para 15000 milhões de seres humanos.
Hoje sabe-se, porém, que os combustíveis tradicionais, o carvão, o petróleo e o gás natural, não permitiriam a sua realização. Em meio de tumultuosa transformação do mundo, os arquitectos do progresso deram-se recentemente conta de que os 3 combustíveis, que nas primeiras horas ajudaram a pôr em marcha a maravilha da técnica, estão quase a esgotar-se.
Petróleo: Os lençóis de petróleo até agora descobertos só podem, na melhor das hipóteses, cobrir durante cinquenta anos o crescente consumo mundial. Os E.U. já quase esgotaram as suas próprias reservas. Os países árabes começaram, no outono de 1973, a reduzir a sua oferta e a utilizar como arma política  esse ouro líquido que principia a escassear.
Gás natural: as reservas mundiais hoje conhecidas chegam ao máximo para quarenta anos.
Carvão: as reservas de carvão estarão esgotadas dentro de 110 a 150 anos se o consumo mundial continuar a aumentar ao ritmo dos nossos dias.
A «falta de energia» no princípio dos anos 70 pôs o mundo à beira do pânico. Mas uma escassez de combustíveis faria realmente perigar toda a nossa técnica?
Vendo bem, o choque revelou-se um impulso benéfico no momento oportuno, visto que, de qualquer modo, a humanidade não poderia continuar a apoiar-se sempre nos actuais combustíveis.
Primeiro porque o carvão, o gás e o petróleo se encontram mal distribuídos na Terra. Nove décimos de todos os países encontram-se na infeliz situação de terem de mendigar alguns poucos a energia necessária à manutenção da sua civilização técnica. Alguns xeques do deserto conseguiram, no inverno de 1973/74, fazer chantagem com o mundo inteiro, através do primeiro embargo do petróleo. Em segundo lugar, o carvão, o gás e o petróleo são perigosos poluidores do ambiente. Não só é nocivo o fumo que se evola das chaminés, como é grave o facto de este fogo consumir um elemento de que imperiosamente precisamos para respirar, o oxigénio. Em países industrializados como a Alemanha, o Japão e a América, só os automóveis consomem mais oxigénio do que o reposto pela natureza. Se o vento não trouxesse novas massas de oxigénio de outras regiões, estes países já estariam na asfixia. Um mundo de 15000 milhões inteiramente suportado pelos combustíveis actuais estaria condenado a sucumbir, em pouco tempo, por falta de oxigénio.

In Futuro, imagem do mundo de amanhã; Círculo de leitores, 1975

No livro, é feita uma projecção para uma data onde a população mundial seja iguale os 15000 milhões de habitantes (notar que o livro foi editado em 1975 e alguns dos problemas apontados, apesar de conhecidos na altura, só actualmente estão a ser levados a sério). Segundo uma extrapolação levada a cabo na época, isso iria acontecer aproximadamente entre 2030 e 2040. Deixo aqui a nota que a população actual ronda os 6600 milhões de habitantes que se coaduna com a extrapolação feita.
De acordo com as previsões actuais segundo a ONU, em 2050, chegaremos aos 9000 milhões de habitantes.
Neste contexto, foram indiciados cinco processos que ameaçam a nossa existência neste planeta: explosão demográfica, industrialização descuidada, carência de alimentos, diminuição das reservas de matérias-primas e poluição do ambiente.

Enquanto o humanidade decidir o que se deve ou não deve fazer com base no que é economicamente viável, problemas relacionados com tais processos nunca serão solucionados. Nem tudo deveria ser comparado em função do seu preço porque acabamos por pagar, em conjunto, um preço bem mais elevado.

Sobre Sérgio O. Marques

Licenciado em Física/Matemática Aplicada (Astronomia) pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e Mestre em Matemática Aplicada pela mesma instituição, desenvolvo trabalho no PTC (Porto Technical Centre) - Yazaki como Administrador de bases-de-dados. Dentro o meu leque de interesses encontram-se todos os temas afins às disciplinas de Matemática, Física e Astronomia. Porém, como entusiasta, interesso-me por temas relacionados com electrónica, poesia, música e fotografia.
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