A fundação do caos (continuação)

 

Queda assim feito em farrapos o preconceito da ordem, roto por todos os lados o papel em que os neomonárquicos embrulham as suas teorias de contrabando. Mas isto, com certeza, embora oriente, não satisfará o leitor. Ele quererá saber, sem dúvida, qual seja, sobre este ponto, a verdadeira noção sociológica. É fácil fazer-lha ver.
A ordem é nas sociedades o que a saúde é no indivíduo. Não é uma coisa: é um estado. Resultado bom funcionamento do organismo, mas não é esse bom funcionamento. O homem normal só pensa na saúde quando está doente. Do mesmo modo, a sociedade normal só pensa na ordem quando nela aparece a desordem. O homem normal quando adoece, procura, não simplesmente sentir-se outra vez de saúde, mas atacar a doença; afastada ela, do seu afastamento resultará a saúde. De nada lhe serviria sentir-se de saúde, se essa sensação não proviesse do agastamento definitivo da doença, mas apenas da sua intermitência, ou de uma anestesia qualquer. Na sociedade, semelhantemente: quando aparece a desordem, a sociedade são procura logo, não manter a ordem, que ser provisória ou aparente, mas atacar o mal que produziu a desordem. A exclusiva preocupação da ordem é um morfismo social.
Levemos até ao fim esta justíssima analogia. No indivíduo, a constante preocupação da saúde é um sintoma d neurastenia, ou daqueles males psíquicos mais graves ainda. Na sociedade, paralelamente, a preocupação da ordem é uma doença do espírito colectivo. Se os argumentos que acima expus não bastaram para insinuar este conclusão no ânimo do leitor, ele pode verificar toda a hipótese reportando-se às circunstâncias sociais em que nasceu a moderna preocupação da ordem, e à espécie de cérebro onde ela surgiu definidamente.
Apareceu ela num período perturbado e anormal da política francesa e em plena vigência da doena chamada romantismo. É, caracterizadamente, uma ideia romântica.

Sobre Sérgio O. Marques

Licenciado em Física/Matemática Aplicada (Astronomia) pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e Mestre em Matemática Aplicada pela mesma instituição, desenvolvo trabalho no PTC (Porto Technical Centre) - Yazaki como Administrador de bases-de-dados. Dentro o meu leque de interesses encontram-se todos os temas afins às disciplinas de Matemática, Física e Astronomia. Porém, como entusiasta, interesso-me por temas relacionados com electrónica, poesia, música e fotografia.
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