Voa alto

Voa alto, ao vento, além
Linda pomba branca. Então
Veloz desce e depois vem,
Vem pousar na sua mão.

Voa livre – diz-lhe assim
O céu é teu, ave tão bela.
Só não te equeças de mim
Deste pobre à janela.

Não o queria a pomba deixar
Ali entregue a si sozinho
Pois foi ele quem a foi salvar
Quando seguia no caminho.

Jazia no chão ferida,
Fundo golpe cortava a asa.
Ele, ao vê-la ali caída
Deu-lhe afago e uma casa.

Naquele dia de frio,
O peito branco, negro sujava.
O sangue que derramava
Tingia de rubro o rio.

Imóvel, na escura terra,
Quase morta de tão doente:
-Triste sorte que o fado encerra,
O desamparo de tanta gente!

Por ela tantos passaram
Com pressa de atarantar.
Outros tantos ainda olharam,
Mas só ele a foi salvar.

Macambúzio, moroso ia,
Quando a vira ali sofrente
A sentir tanta agonia
Numa dor dura e dolente.

Pegou nela com candura,
Com zelo de um grande amigo
E complacente a levou consigo.
Foi-lhe a luz nessa amargura.

Portou-a com todo o zelo,
O cuidado que lhe merecia
Dar. Ela, lânguida, ao vê-lo,
Reatou-se em alegria.

No seu colo queda seguia
Ouvindo o forte bater
Do coração e dormia
Já cansada de viver.

Abraçava-a enquanto ia
Pelo caminho ao vento irado.
Com os braços a aquecia
No calor de um abraço.

Chegado a casa por fim,
Um pequeno humilde lar
Uma cabana singela assim,
Com tabiques a amurar.

O homem que tão pouco tinha
Para a boca saciar
Dá-lhe tudo e então definha,
Passa fome para a salvar.

Tratou-lhe com dedicação
As feridas que a pungiam
E sempre que os seus olhos abriam
Sorria-lhe com coração.

Lavou-a num banho de rosas,
Com pano dum linho fino
Contando-lhe histórias ditosoas
De quando era menino.

Deitou-a numa cama de flores
Colhidas de um belo jardim
Cobriam-na folhas às cores
Com fragrância a alecrim.

De noite quando acordava
Do mais horrível pesadelo,
Ficava contente ao vê-lo
Pois por ela, ele velava.

Numa manhã de sol raiado,
Ela acordou com vigor,
O sofrimento tinha passado,
A vida já tinha cor.

Das chagas que a cobriam
Despira-se-lhe o corpo macio.
As penas de novo cresciam
Enchendo-lhe o peito de brio.

Sai pela janela airada,
Voando alto em liberdade
Como ninfa enamorada.
Sentia da brisa saudade.

Dada volta estonteante,
Com tanta satisfação
Volta p’ra trás radiante,
Vindo pousar na sua mão.

Criou laços de amor
Com aquele pobre mendigo.
Ela, S’algum dia for,
Levá-lo-á sempre consigo.

Voa – diz-lhe em triste pranto
-Voa livre é o qu’eu mais quero!
Voou livre com um canto
A despedir em desespero.

Não deseja ser entrave
Quem dela cuidou. Concerteza,
Ser livre como uma ave
Está na sua natureza.

Sobre Sérgio O. Marques

Licenciado em Física/Matemática Aplicada (Astronomia) pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e Mestre em Matemática Aplicada pela mesma instituição, desenvolvo trabalho no PTC (Porto Technical Centre) - Yazaki como Administrador de bases-de-dados. Dentro o meu leque de interesses encontram-se todos os temas afins às disciplinas de Matemática, Física e Astronomia. Porém, como entusiasta, interesso-me por temas relacionados com electrónica, poesia, música e fotografia.
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