O fortuna

 

O vídeo

Na sequência de uma pesquisa aleatória de vídeos no youtube descobri um em particular que me despertou um interesse especial, o qual coloco acima. Trata-se de uma encenação da conflagração do primeiro dos dois únicos engenhos nucleares alguma vez usados pela Humanidade contra a Humanidade, a bomba atómica com o nome de código Little Boy, isto é, Rapazinho. Foi largada em Hiroshima no final da Segunda Grande Guerra, precisamente na fase dessa guerra conhecida por Guerra do Pacífico. O outro dispositivo com nome de código Fat Man (Homem Gordo) explodiu uns dias mais tarde em Nagazaki. Considero que foi a mais hedionda aplicação técnica das descobertas científicas emergentes no início do século XX sobre a estrutura do núcleo do átomo. Contudo, li em algum lado e cito: “A Técnica não é boa nem má, é aquilo que o Homem quer fazer dela”.

Muitos testes nucleares foram levados a cabo por várias nações para avaliar o comportamento das armas nucleares em várias situações e também como manifestações de poder. A disseminação nuclear teve repercussões políticas que subsistem nos dias de hoje. Exemplo disso consiste na Teoria da dissuasão amplamente aplicada pela política externa estadunidense, a qual falsamente pretende legitimar a invasão do Iraque e é pretexto para tensões entre os Estados Unidos e o Irão e a Coreia do Norte sob a fachada da NATO (ver também a retirada das forças francesas da estrutura militar da NATO sob a direcção de De Gaulle e o seu programa nuclear independente e a Force de frappe).

A música

A encenação é acompanhada pela obra musical com o mesmo título deste texto que musica uma selecção de poemas da colectânea de textos medievais intitulada Carmina Burana. Apresento a lírica e respectiva tradução de seguida.

O fortuna
velut luna
statu variabilis,
semper crecis
aut descrescis;
vita detestabilis
nunc obdurat
et tunc curat
ludo mentis aciem,
egestatem
potestatem
dissolvit ut glaciem.

Sors immanis
et inanis,
rota tu volubilis,
status malus,
vana salus
semper dissolubilis,
obumbrata
et velata
michi quoque niteris;
nunc per ludum
dorsum nudum
fero tui sceleris.

Sors salutis
et virtutis
michi nunc contraria,
est afectus
et defectus
semper in angaria.
Hac in hora
sine mora
cordem pulsum tangite;
quod per sortem
sternit fortem,
mecum omnes plangite!

O fortuna,
como a lua,
o seu estado é variável
crescendo sempre
ou decrescendo;
vida detestável
agora obdura
depois cura
a seu belprazer,
à pobreza
e ao poder,
dissolve-os como ao gelo.

Sorte imane
e inane
rodas volúvel,
maléfica,
saúde vã
sempre dissoluta,
obumbrada
e velada
também me contagias;
agora através do ludo
trago o meu dorso nú
a ti, celerada

A sorte, na saúde
e na virtude,
está contra mim,
anima
e desanima
sempre em angária.
Nesta hora
sem demora
pulsam cordas tangidas;
uma vez que a sorte
prostra os mais fortes,
chorai todos comigo!

 

Como podemos observar, um texto escrito na idade média ainda se consegue manter actual. Chorai todos comigo pois o destino é capaz de prostrar os homens mais fortes. E foi com lágrimas nos olhos que terminou a guerra.

Sobre Sérgio O. Marques

Licenciado em Física/Matemática Aplicada (Astronomia) pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e Mestre em Matemática Aplicada pela mesma instituição, desenvolvo trabalho no PTC (Porto Technical Centre) - Yazaki como Administrador de bases-de-dados. Dentro o meu leque de interesses encontram-se todos os temas afins às disciplinas de Matemática, Física e Astronomia. Porém, como entusiasta, interesso-me por temas relacionados com electrónica, poesia, música e fotografia.
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Uma resposta a O fortuna

  1. Júlia diz:

    Muito bem Sérgio. É preciso não esquecermos estes horrores que se praticaram e que ainda hoje se praticam de outras maneiras.Devemos, sim, chorar todos uns com os outros pois o destino tem-nos mostrado que mesmo os homens mais fortes são capazes de serem prostrados.

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