Tirana corrida

Até há bem pouco tempo, fui instrumentista em vários ranchos folclóricos (ver também Federação do Folclore Português)  em Ovar e Santa Maria da Feira. Dedicava algum do meu tempo a tocar aquilo que vulgarmente chamamos de concertina. Dei os primeiros passos nessa área quando alguém me sugeriu que aprendesse a tocar esse instrumento de modo a servir o Rancho Folclórico da Ribeira de Ovar, que passava por sérios problemas em termos de recursos humanos.

Depois de melhorar o desempenho, fui também instrumentista em outros grupos do concelho vizinho. Para além do rancho da Ribeira, passei pelos grupos:

  • Grupo Folclórico "As andorinhas de Espargo"
  • Rancho Regional de São Miguel de Souto
  • Rancho da Associação Cultural Recreativa e Desportiva de Escapães
  • Rancho Folclórico "As fogaceiras"
  • Grupo de Danças e Cantares Regionais do Orfeão da Feira

Deixo aqui a nota de que, apesar de ter conhecido outras terras e outras gentes, não considero que tenha sido uma experiência enriquecedora. Pelo contrário, penso tratar-se de uma actividade deveras redutora da cultura e evolução pessoal. Em suma, tratam-se de tradições centradas fundamentalmente nos finais do século XIX e inícios do século XX, desprovidas de qualquer sentido histórico. De facto, assisti a algumas  danças e cantigas à volta da fogueira nas habituais verbenas pelas alturas dos santos populares e o aspecto técnico tanto musical e lírico como coreográfico  são demasiado primitivos e condicionados em termos evolutivos. Temos de nos virar para o futuro e deixar de agarrar o passado de forma tão perfeccionista.

No meio desse mistifório todo associado ao folclore ainda podemos encontrar cantigas que possam chamar a atenção. Deixo aqui uma delas, a Tirana corrida. Trata-se de uma dança simples acompanhada por uma música não mais complexa (característica principal deste tipo de actividade etnográfica) do repertório do Rancho da Ribeira mas com uma letra que mantém um estranho toque de actualidade social.

Tirana corrida

Tu és rico, eu sou artista
Sem mim não podes passar
Enquanto eu tiver vigor
Hei-de para ti trabalhar

Trabalho p’ra ti desde a infância
Ainda não fiz outra vida
Mas como és capitalista
E por força do que eu faço
Precisas de tudo o que eu faço
Tu és rico e eu sou artista

Quando no mundo te viste
Logo de mim precisaste
Fiz-te o berço onde embalaste
A cama onde dormiste
Fiz-te o fato que vestiste
As botas para calçares
E para te ensinar a andar
Fiz-te um carrinho com rodas
Tenho-te feito tantas modas
Sem mim não podes passar

Faço prédios para habitares
Amasso pão para comeres
Faço livros para aprenderes,
As leis para me castigares
Faço barcos para embarcares
Sou navegante e pescador
Artesão e lavrador
Fabrico o vinho que bebes
Tudo o quanto tens me deves
Enquanto eu tiver vigor

E quando não fizeres mais nada
Hei-de fazer-te o caixão
Para te levar pela mão
À derradeira morada
Hei-de fazer a enxada
Com que te hei-de sepultar
E para os teus ossos enterrar
Mandei fazer um jazigo
E já sem ter contas contigo
Hei-de para ti trabalhar

Sobre Sérgio O. Marques

Licenciado em Física/Matemática Aplicada (Astronomia) pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e Mestre em Matemática Aplicada pela mesma instituição, desenvolvo trabalho no PTC (Porto Technical Centre) - Yazaki como Administrador de bases-de-dados. Dentro o meu leque de interesses encontram-se todos os temas afins às disciplinas de Matemática, Física e Astronomia. Porém, como entusiasta, interesso-me por temas relacionados com electrónica, poesia, música e fotografia.
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2 respostas a Tirana corrida

  1. Júlia diz:

    És uma caixinha de surpresas… não sabia que tocavas concertina e, muito menos, nesses ranchos folclóricos.Adorei essa cantiga «Tirana corrida», muito actual…Grande abraço

  2. jorge pintassilgo diz:

    és o Sérgio da ribeira ovar? Um abraço deste grupo que já passaste por cá visita-nos

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