Os bichos do país dos desditosos

Os vis porcos voadores
Só aviam por dinheiro
Com chapéus de aviadores
No país dos cobertores
A tilintar o mealheiro.

Os cordeiros são lãzudos,
São néscios sobremaneira,
Parecem uns cabeçudos
A expectar o entrudo
Que passa na rua alheia.

Os cães… esses? Boas reses,
Quando a raiva não apega.
Airosos passam. Às vezes,
Tomados como corteses,
Ferram que até fumega.

As galinhas, mexericos
Cacarejam toda a vida.
Sejam pobres, sejam ricos,
Tenham potes ou penicos,
Não se escapam à intriga.

Os camelos bombam coca
E exdruxulam à janela
Mais tarde com tanta moca
Fazem suflê de minhoca
Do estrugido da panela.

Para os gatos a beleza,
Boniteza, nada mais
Mas quando os sentam à mesa
Abate-se logo a tristeza
Pois são homossexuais.

A raposa é matreira.
Mais a cabra sai da tasca.
Quando vem na brincadeira,
Com uma manobra certeira
Deixa qualquer um à rasca.

Mui sagaz é o jumento
Num país de tanta gente.
Tem condão de encantamento
A falar no parlamento
Com discurso eloquente.

Os vermes a rastejar
Pelo chão, sem qualquer nome
São bichos de arrepiar:
Mesmo após tanto manjar
Estão sempre cheios de fome.

Nenhum bicho s’aproveita
No país da bicharada.
Um país devoto à peita
Nunca mais se endireita,
Nunca deixa de ser nada.

Sobre Sérgio O. Marques

Licenciado em Física/Matemática Aplicada (Astronomia) pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e Mestre em Matemática Aplicada pela mesma instituição, desenvolvo trabalho no PTC (Porto Technical Centre) - Yazaki como Administrador de bases-de-dados. Dentro o meu leque de interesses encontram-se todos os temas afins às disciplinas de Matemática, Física e Astronomia. Porém, como entusiasta, interesso-me por temas relacionados com electrónica, poesia, música e fotografia.
Esta entrada foi publicada em Poemas. ligação permanente.

Uma resposta a Os bichos do país dos desditosos

  1. Nelson diz:

    O que tu em 2009 escreveste, sendo ele tão actual… Isto em 2011…

    Eu cito:

    Nenhum bicho s’aproveita
    No país da bicharada.
    Um país devoto à peita
    Nunca mais se endireita,
    Nunca deixa de ser nada.

    clap clap clap

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