O Mosteiro de Leça do Balio

Nestes últimos dois domingos enveredei por uma actividade alheia ao meu domínio de formação. Juntamente com António Santos, repórter que exerce actividade na Rádio Clube da Feira, parti à construção de entrevistas e reportagens em eventos de índole cultural. Até hoje conto com o “Congresso de Medicina Popular” de Vilar de Perdizes, Montalegre e uma recriação medieval em Leça do Balio com a designação “Os Hospitalários no Caminho de Santiago”. Estas e outras reportagens podem ser vistas no Via Lusitana à medida que o António as for colocando.

Tem sido uma experiência enriquecedora tanto do ponto de vista não só cultural como de sociabilização. A feira medieval de Leça do Balio é marcada por um interessante enquadramento histórico. Por exemplo, tive oportunidade de assistir a uma encenação do polémico casamento entre D. Fernando I e D. Leonor de Teles.

Apresento uma pequena resenha, uma vez que nas reportagens, dada a sua natureza, não há espaço para explicações históricas mais detalhadas.

A Ordem dos Hospitalários

Oficialmente conhecida como Ordem Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta teve origem num hospital situado em Jerusalém com o intuito de abrigar e tratar peregrinos que visitavam a Terra Santa. Com a conquista da Terra Santa pelas Primeiras Cruzadas, funda-se a Ordem em 1099, a qual se estende de forma a prover escoltas militares. À par com a Ordem dos Templários e com a Ordem dos Teutónicos, tornou-se um dos mais fortes grupos militares ao serviço da Cristandade.

De acordo com alguns autores, a Ordem dos Hospitalários recebe por volta de 1120 de D. Teresa de Leão (primeira rainha de Portugal) uma propriedade situada em Oliveira do Hospital, facto explicativo da respectiva toponímia. Entre os anos 1122 e 1128, a rainha cede à Ordem a sua primeira casa capitular, o Mosteiro de Leça do Bailio. Estas doações foram reiteradas pelo filho D. Afonso Henriques.

Recebe ainda, de D. Sancho II a doação dos domínios de Amieira, Gavião e Ucrate com o propósito desta os fortificar e fomentar. Aí é construído o Castelo do Crato que viria a albergar a sede da Ordem entre os anos 1336 e 1341, outrora no Mosteiro de Leça do Balio. A Ordem dos Hospitalários ainda hoje subsiste, prestando serviços médicos e humanitários.

Os caminhos de Santiago

Reza a lenda que depois da dispersão dos apóstolos pelo mundo o apóstolo São Tiago Maior, irmão do evangelista São João, foi pregar para regiões longínquas passando algum tempo em Hispânia. Este santo foi martirizado no ano 44 a mando do Herodes de Agripa I. Dois dos seus discípulos, Teodoro e Anastácio, resgataram o corpo do apóstolo e sepultaram-no secretamente numa floresta algures onde é agora actual Galiza. Segundo a lenda, um ermitão observou uma reincidente chuva de estrelas durante várias noites. Avisado do fenómeno, o bispo de Ira Flávia ordena escavações no local, acabando por encontrar uma urna de mármore com as ossadas do santo e dos seus discípulos. No Campus Stellae (de onde provém a palavra “Compostela”, foi erguida uma capela para proteger o túmulo do santo. A partir do ano 1000 popularizaram-se as peregrinações ao local.

No século XII é publicado o códice calixtino que compreendia uma série de textos litúrgicos que visavam a promoção da Sé Catedral de Santiago de Compostela. Composto por cinco livros, destaca-se o livro V por constituir um guia do peregrino a Santiago de Compostela baseado no percurso do autor com lugares para descansar, qualidade das águas, relíquias para contemplar, santuários para visitar, bem como as gentes e cidades do caminho. Esse itinerário é conhecido como o Caminho Francês. Daí em diante surgiu um grande rol de caminhos de peregrinação dos quais, para além do Caminho Francês, apenas outros dois terminam directamente em Santiago, nomeadamente o Caminho Inglês e o Caminho Português. Muito antes destes itinerários, já existia uma rota de peregrinação Celta e mais tarde Romana que desembocava em Finisterra percorrida por aqueles que desejavam ver o mar no Fim da Terra, na parte mais a poente da Europa. Tratava-se de uma região considerada mágica, repleta de lendas e tradições. A respectiva rota simbolizava o caminho percorrido pelo sol desde o nascente onde nasce até onde se põe.

Actualmente, o Caminho Português passa por Leça do Balio bem perto do mosteiro. Assumindo que este itinerário não tenha sofrido alterações consideráveis, é natural concluir que a Ordem dos Hospitalários prestava auxílio aos peregrinos portugueses que calcorreavam os caminhos de Santiago.

caminho de santiago em leça do bailio
Na figura podemos ver que o caminho português ainda passa perto do Mosteiro
Ver: http://www.caminosantiago2010.es/

O casamento de D. Fernando I com D. Leonor

Numa altura em que se disputava o trono de Castela entre D. Pedro I e o seu irmão ilegítimo Henrique da Tastâmara, sobe ao trono português o rei D. Fernando. Após o assassínio de D. Pedro I por parte do seu irmão, D. Fernando abandona a neutralidade no conflito de Castela alegando ser neto de D. Sancho IV, sendo reconhecido como rei em cidades do norte da península aliado do rei mouro de Granada. A sua posição face a Castela atraiu ao país uma alternância entre tempo de guerra e paz. Em 1371 é assinado entre D. Fernando I de Portuagal e D. Henrique II de Castela o tratado de Alcoutim aquando da intervenção do Papa Gregório XI no qual o rei português é prometido a D. Leonor de Castela.

Entretanto, ainda muito jovem, D. Leonor de Teles casa-se com João Lourenço da Cunha. Conta-se que esta, durante uma visita à sua irmã Maria de Teles, tenha seduzido o rei. Alegando consanguinidade, foi obtida a revogação do seu casamento com João Lourenço criando um sentimento de reprovação no povo e um clima de insegurança. Por seu lado, o rei de Castela não se sente ofendido, prometendo a filha a D. Carlos III de Navarra. O rei de Portugal casa-se em segredo com D. Leonor de Teles no Mosteiro de Leça do Balio, acto que lhe valeu forte contestação interna.

A feira medieval

Para além dos estaminés de acepipes, artigos manufacturados e outros produtos habitualmente comercializados na Idade Média, o evento conta com recriações históricas bem como a criação de um ambiente medieval recorrendo a um rol de companhias de espectáculos de rua. Destaco especialmente a influência do médio oriente. Exponho de seguida um vídeo dum espectáculo de dança do ventre realizado pela bela Jacqueline e seu o grupo no adro da igreja do Mosteiro de Leça do Balio.

  

Algumas referências extra

 

Sobre Sérgio O. Marques

Licenciado em Física/Matemática Aplicada (Astronomia) pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e Mestre em Matemática Aplicada pela mesma instituição, desenvolvo trabalho no PTC (Porto Technical Centre) - Yazaki como Administrador de bases-de-dados. Dentro o meu leque de interesses encontram-se todos os temas afins às disciplinas de Matemática, Física e Astronomia. Porém, como entusiasta, interesso-me por temas relacionados com electrónica, poesia, música e fotografia.
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2 respostas a O Mosteiro de Leça do Balio

  1. Júlia diz:

    Muito interessante, Sérgio. Foi uma bela aula de história, da qual gostei muito. Para te dizer a verdade a história não é muito a minha especialidade mas, quando bem contada, adoro.Bjs

  2. Céu diz:

    FILHOS DA NOSSA ALMAJosé M. Raposo Sei que um dia vou morrer.Quando tal acontecer,Deixo-te as rosas e o vento,Deixo-te a chuva e o sol,O cantar do rouxinol,Minha almaE meu pensamento.Deixo-te a nuvem que passaE que o vento faz correr,Deixo-te o encanto e a graçaDe uma papoila a crescer,Deixo-te as ondas do marQue se desmancham na areia,Deixo-te o ténue luarEm noites de lua cheia,Deixo-te a flor e a belezaDos poemas que escreviE deixo-te a natureza…Quando o teu tempo findarE tu te fores daqui,Nalgum lugar hei de estarSó esperando por ti.E ao partires, deixaremosPlantados, como uma palma,Os poemas que escrevemos.Os filhos da nossa alma. Alguns poemas nos deixam sem palavras, outros, desejamos tê-los escritos e, em tantos outros, percebemos a maravilha dos sentimentos que brotam de um Ser e, é nesse precioso momento, que percebemos o ser humano que existe por trás das portas que não se abrem, por culpa de uma “Fechadura Enferrujada”, mas, que os sentimentos nobres as fazem abrir-se de par em par, para o Universo e reverberarem em nossas almas.Ainda mais, mostra-nos, como o poeta é duma beleza inexplicável para alguns mortais. Sem palavras.São belos teus posts e de grande interesse cultural…Parabéns Sérgio e muito obrigada pelos teus comentários no meu espaçoVolta breve amigoContinuação de uma excelente semanaCéu

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