Silêncio

O silêncio é fino dilúculo como fio de pedra a espalhar no chão quase inaudível uma mescla de sabores entranhados na essência  do amanhecer. A forma cristalina da névoa purpúrea envolta no manifesto rubro do ocaso a beijar a noite sob o olhar  enregelado de um corvo apeado nas docas do cais ao sol poente forma-se no vazio de tudo enchendo o negro de nada duma cor  translúcida. O som disso é a voz do silêncio, o clamor da quitude tangida na mão pela tépida brisa estanque esquecida na  paisagem. As copas das árvores distantes vislumbram o infinito, imitando o verde no azul marinho do céu suspensas pelo  estreito castanho balançado da raíz como um pêndulo oscilando-se ao vento. Trás música inaudível, uma harmonia de palavras  por dizer, significados por encontrar num emaranhado de prantos e lamúrias roucas. É um quadro de aguarela, frescos num mural  de tons exóticos à fosca luz caídos como cinza atirada ao ar de várias cores.
Ouço o silêncio, escuto-lhe a voz sábia. A vida surge-se em partitura onde cada nota é uma composição por si só ao ritmo dum  beijo de lábios rosados, um sorriso no meio de tantos outros, construindo uma obra maior. Escuto-o, porque dele vem a moral.  Ouço-o porque aí está a harmonia do entendimento, a água que move o moínho e, com a farinha que rega, faz o pão. A mesma água  que lava as mãos e se senta à mesa à refeição com o brilho no olhar cuja extrema beleza está entregue ao esquecimento. Eis o  silêncio serpeando-se por entre cada nota duma excelsa composição à espera de ser compreendido para que seja compreendida a  obra em todo o seu explendor. Á noite, faz-nos uma última visita mesmo antes de partirmos para a terra dos sonhos.

Sobre Sérgio O. Marques

Licenciado em Física/Matemática Aplicada (Astronomia) pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e Mestre em Matemática Aplicada pela mesma instituição, desenvolvo trabalho no PTC (Porto Technical Centre) - Yazaki como Administrador de bases-de-dados. Dentro o meu leque de interesses encontram-se todos os temas afins às disciplinas de Matemática, Física e Astronomia. Porém, como entusiasta, interesso-me por temas relacionados com electrónica, poesia, música e fotografia.
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2 respostas a Silêncio

  1. Júlia diz:

    Lindíssima esta prosa. Parabéns, devias escrever mais coisas deste género para nos lavar a alma. Também gosto do silência, este que se «ouve» na natureza e, também, daquele que se instala entre duas pessoas em momentos de comunhão de almas. Mas quando esse silêncio se torna hábito, deixando de haver diálogo, esse é doentio, passa a não haver comunicação, deixando que a morte se aposse da relação entre pessoas.Um grande abraço

  2. Sérgio diz:

    Bem observado, Júlia. Esse silêncio que acabas de descrever é doloroso. No entanto, não é a isso que me refiro. Aliás, neste ponto de vista até é encarado como uma das piores formas de ruído, uma intensa e ruidosa desarmonia.Foi um teste ao meu estilo prosaico menos técnico. Não me sinto tão à vontade a escrever prosa literária, mas vou tentar escrever mais coisas :)Obrigado pelo comentário, pois tocaste num ponto que merece uma profunda reflexão metafísica.Abraço

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