Industrialização

Uivam frágoas em fúria
Gritam roucos de lamúria
Motores de ferro em força e fogo.

Máquinas em movimento
De rodas dentadas e cremalheiras
Içam guindastes com passo lento
Pesados contentores de outras beiras.
Chiam fortes cabos em cadernais,
Atroam frenéticas, correntes de transmissão
Em serras, tornos mecânicos, conformadoras,
Quinadeiras, moínhos e tanto mais,
Um mar de delírios em convolução
Num extasiado concerto de danças sedutoras.
São grandes transformadores de potência
Alimento de tamanha eloquência,
A música que baila os vários furores
Do andar estrénuo de pontes e elevadores
Maquinismos de ar comprimido lá fora,
Silos que enchem e vazam toda a hora.
O cheiro a aço brame dormente
O sabor lúbrico das luzes fabris
Incessante ciciar de tons febris,
Tons caiados dum pálido demente.
As altas chaminés tossem fuligem
Negra no cerúleo das núvens que vão,
O fumo da hulha em evolação
Voa tão distante que à paisagem
Pinta-a, intensamente, a carvão.
O rio azul corre tingido
Da cor de barro em carne viva,
Levando além sempre à deriva
Refugos do industrialismo.
Por entre soutos e pinheirais,
Planaltos, prados e pantanais
Erguem-se em catenárias extensas
Linhas eléctricas de alta tensão
Acendendo à noite lâmpadas imensas,
Energizando toda esta industrialização.
A produção de bens de consumo
São seu fim e razão de ser,
O lucro crescente é doce sumo
De capital que não cessa de crescer.
A indústria estende cada tentáculo
Desde o operário na mais baixa esteira
Até bem ao cimo do pináculo
Da desavergonhada elite financeira.
O fim da tarde ecoa no som da sirene
Fazendo-se vida em horas de ponta
Revezando-se operários vezes sem conta
Em usinas de labuta perene
Ditando usos e costumes de cada dia,
Os rituais oriundos da engenharia.
Eis que surge como uma religião
O consumismo, o comércio e a produção.

Sobre Sérgio O. Marques

Licenciado em Física/Matemática Aplicada (Astronomia) pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e Mestre em Matemática Aplicada pela mesma instituição, desenvolvo trabalho no PTC (Porto Technical Centre) - Yazaki como Administrador de bases-de-dados. Dentro o meu leque de interesses encontram-se todos os temas afins às disciplinas de Matemática, Física e Astronomia. Porém, como entusiasta, interesso-me por temas relacionados com electrónica, poesia, música e fotografia.
Esta entrada foi publicada em Poemas. ligação permanente.

2 respostas a Industrialização

  1. Júlia diz:

    Este poema mostra bem o que é a industrialização e tudo o que anda à sua volta.

  2. palmi diz:

    hola julia nao sei a razao por que nao falas sempre estou vendo os teus poemas te enviu mensagens e nao me respondes bem sei que pode que tenhas muitos problemas mas só dizer se se encontram bem e fico contente um beijo grande palmira

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