Ciência e sociedade – um caso particular

O início da Renascença marca o término da Idade Medieval. Cientifica, filosofica e artisticamente, caracterizou-se por um retorno às referências da antiguidade clássica favorecendo um ideal naturalista. Dentro deste novo espírito surgiu, por intermédio de Copérnico, uma importante hipótese científica, o heliocentrismo, ponto de partida da astronomia moderna. O físico Galileu levou a cabo uma série de estudos que permitiram o subsequente desenvolvimento da mecânica, formulando o princípio da relatvidade clássica segundo o qual o tempo é considerado como absoluto. Os trabalhos deste e de Kepler permitiram a Newton postular as suas leis de mecância e a lei da atracção universal. O seu trabalho foi aperfeiçoado por matemáticos como D’Alembert, Clairaut, Euler, Lagrange culminando, segundo Gauss na “Mecânica Celeste” de Laplace. A disciplina de óptica fora a mais cultivada durante a era medieval. Por outro lado, floresceram ideias em termodinâmica com a descoberta da pressão pelo físico Pascal e, mais tarde, a sua relação com a temperatura na bem conhecida equação dos gases ideiais.

Como acontece com qualquer área do conhecimento, o trabalho das principais personalidades assenta, de algum modo, no trabalho de personalidades predecessoras. Um dos exemplos prende-se com a génese da física quântica. Os princípios associados a esta disciplina surgem de tal modo dissociados do senso comum que é difícil imaginar como estes foram concebidos. É sabido que a sua origem centra-se num trabalho de Planck sobre a radiação do corpo negro, o qual estava ciente das ideias de Boltzmann. Decidi traçar o caminho, no sentido cronológico inverso, desde este ponto. Acabei por me deparar com o trabalho de Carnot sobre a força motriz do fogo. Aqui é possível encontrar um excelente livro sobre essa disciplina deste ponto de vista.

Numa breve pesquisa, encontrei o livro O fogo na mente dos homens: uma fé revolucionária no qual vi uma motivação social para um dos trabalhos mais originais na história da Física do qual tomei a liberdade de traduzir um pequeno excerto.

Foram as fornalhas e as máquinas movidas a calor de Ruhr, Saar e Silesia que durante a segunda metade do século XIX transformaram um povo germânico localizado e rural na nação mais industrializada e urbanizada de toda a Europa. As máquinas de combustão que estiveram por trás da rápida industrialização da Alemanha foram, com efeito, um produto duma “segunda revolução industrial”. Enquanto a primeira revolução industrial emergiu em Inglaterra um século antes por intermédio da tentativa e erro dos artistas-artesãos, a revolução germância emergira dos laboratórios dos cientistas-engenherios. A capacidade do novo estado alemão aplicar as descobertas sistemáticas da investigação científica à produção fabril, permitiu-lhe suplantar a França como maior potência da Europa continental em maneiras ainda mais decisivas que a vitória militar de 1870-71.

A democracia social representou uma tentativa sistemática dos alemães em converter a sua curta conflagração revolucionária de 1848-50 numa mais disciplinada e moderna máquina-a-vapor política. O partido democrático social idealizou organizar racionalmente os trabalhadores no seio da sociedade do mesmo modo que os engenheiros oraganizavam a maquinaria no interior de uma unidade fabril.

A alemanha também superou a França como foco de esperanças revolucionárias; e a mais bicuda ironia desta mudança dramática pode ser ilustrada pela história de uma família francesa: os Carnot. O Lazare Carnot fora o engenheiro militar mor e “organizador da vitória” da revolução francesa original em oposição à intervenção contra-revolucionária dos príncipes germânicos de 1793-94. O seu filho Sadi reflectindo tristemente sobre a subsequente vitória inglesa sobre Napoleão e o exílio de Lazare na Alemanha, concluiu que a máquina-a-vapor estivera no cerne do triunfo da Inglaterra. Ele então investiga os seus segredos e desencarcera a teoria da termodinâmica que tornou os motores de combustão e alta pressão possíveis. As suas “Reflexões sobre a potência motora do fogo” foram escritas quando tinha ele apenas 28 anos e têm sido designadas como “o mais original trabalho de génio em toda a história da ciência e tecnologia físicas”; mas foi o seu único livro, uma vez que acaba por falecer de cólera em 1832.

Foram os germânicos que desenvolveram com maior sucesso tanto o conceito da máquina militar de Lazare como a teoria de Sadi sobre máquinas térmicas. A primeira surgiu com a vitória do exército prussiano de 1870-71. A segunda seguiu-se nos subsequentes quinze anos quando N. A. Otto desenvolveu o motor a quatro tempos; Rudolf Diesel começou a trabalhar no motor que recebe o seu nome; e Gottliebe Daimler e Karl Benz, trabalhando idependentemente, criaram o primeiro motor do automóvel moderno.

Sobre Sérgio O. Marques

Licenciado em Física/Matemática Aplicada (Astronomia) pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e Mestre em Matemática Aplicada pela mesma instituição, desenvolvo trabalho no PTC (Porto Technical Centre) - Yazaki como Administrador de bases-de-dados. Dentro o meu leque de interesses encontram-se todos os temas afins às disciplinas de Matemática, Física e Astronomia. Porém, como entusiasta, interesso-me por temas relacionados com electrónica, poesia, música e fotografia.
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