Uma manhã na minha vida

Uma vez que certas palavras consideradas como "feias" já têm lugar no dicionário (confesso considerar isso uma particularidade de bom grado),  decidi usá-las, sem qualquer tipo de preconceito inerente a um povo ignorante (para não insultar os burros), para descrever uma breve passagem na  minha vida. Entre essas palavras conto, por exemplo, com caralho, piça, cona, pachacha, paneleiro (gíria da baixa sociedade), puta, pega (no  sentido figurativo), entre outras.

Nos tempos subsequentes ao término da licenciatura, fiz-me à vida na esperança de enveredar por uma carreira profissional dentro dos parâmetros da  minha formação académica. De acordo com esta, seria em alguma das vertentes de matemática ou física, a qual poderia incluir algoritmia, análise de  dados, entre outras possibilidades. Dotado de conhecimentos no contexto de linguagens de programação, considerei ser esta capacidade uma  mais-valia nesse sentido.
Com a energia característica de uma pessoa jovial concorri a diversas propostas de emprego, tanto ao nível empresarial como no de investigação.  Não posso dizer que fui bem sucedido nessa empreitada já que acabei por fazer um mestrado no outono seguinte. Como é óbvio no entanto, acabei por  ser chamado para diversas entrevistas entre as quais, uma que cosidero ter sido deveras marcante.
Concorri a uma bolsa de investigação na área de matemática com preferência a quem dominasse a área de programação. O anúncio dessa fora publicado  pelo "Serviço de Bioestatística e Informática Médica" sito no "Hospital de São João" no Porto. Com um tempo de resposta após o fecho do anúncio  reduzido, contactaram-me para uma entrevista nessas instalações, requerendo a minha presença pelas 08h30. Como estava naquela fase da juventude em  que temos uma vida pela frente e começamos a traçar planos, todas as espectativas eram altas e, com aquela garra típica dos adolescentes, lá me  apresentei à hora marcada (quase como na paneleirice do fado "lenda da fonte") apesar de não conhecer a localidade nem tampouco o recinto.
Quando lá cheguei, fui conduzido por um funcionário que por ali andava nas suas lidas de limpeza a um elevador que desembocava na sala de espera  contígua ao gabinete onde seria efectuada a entrevista. Na sala já se encontravam alguns candidatos e, em pouto tempo, já éramos muitos. Pude  constatar que todos eles versavam a mesma área, matemática.
Durante a manhã iam sendo entrevistados os candidatos. O tempo médio por entrevista atribuído a cada um seguia um padrão curiosamente identificável.  A entrevista das raparigas demorava, em média, mais de meia hora. Quanto aos rapazes, esse valor caia para metade. Durante o grande intervalo de espera que me ficou destinado, pude trocar impressões com alguns dos demais presentes na mesma situação que não deixaram de reparar em tão curioso fenómeno.
Em termos funcionais, o esquema de chamada funcionava como no posto médico sem intercomunicador. A cada candidato que acabava a entrevista era incumbida a tarefa de chamar o candidato seguinte. Ouvi o meu nome já bem perto do meio-dia, facto que me deixou satisfeito após a delonga. Entrei numa sala relativamente pequena quando comparada com a que tinha estado. No meio, estava colocada uma mesa comprida. No lado aposto à porta, ao centro da mesa, encontrava-se um médico acompanhado em cada um dos lados por outros dois. Para não amiar nomes, digamos que eram (da esquerda para a direita): o Dr. Cabeça da Piça, o Dr. Cara do Caralho e o Dr. Lábios de Cona.
Ainda não tinha fechado a porta atrás de mim, ouço o paneleiro do Dr Cara do Caralho, com toda a pompa afim a um filho da puta que, sendo português e consequentemente estúpido, se acha inteligente em toda a sua prepotência e arrogância:
– Podes sair, já preenchemos a vaga!
O badocha do caralho nem se propôs sequer a esconder o facto. Confesso que o choque foi enorme. Naquele instante consegui sondar o ar despeitoso de motejo nas fuças do Dr. Cabeça de Piça que mais parecia uma puta a afirmar-se virgem. O Dr. Lábios de Cona que se encontrava ao alcance do meu punho, mostrava-se perplexo. Parecia estar tão surpreso quanto eu. Mal se deu a situação descrita, assume uma posição defensiva, esperando, de mim, uma reacção com um teor desmedido de violência. Tal passou-me pela cabeça mas o primeiro a aviar um sopapo nas trombas seria aquele cuja estranheza estava estampada no focinho.
Nesse momento, contive-me e, sem me refazer do choque, cumprimentei-o e às outras duas putas cujo ar de paneleiros começava a afigurar-me incrivelmente emético e nauseabundo. Antes de sair da sala, ouço o Dr. Cara do Caralho:
-Chame a menina Mariana!
Era o candidato seguinte. A vaga tinha sido preenchida mas talvez… ainda houvesse espaço para mais alguém. Só não podia ser eu a preenchê-lo, talvez pela aparência.
Empurrei a merda do episódio para os confins da memória. O problema é que a bosta flutua e acabou por dar à costa na maré dos sonhos. Então… tive um pesadelo horrível.

Sobre Sérgio O. Marques

Licenciado em Física/Matemática Aplicada (Astronomia) pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e Mestre em Matemática Aplicada pela mesma instituição, desenvolvo trabalho no PTC (Porto Technical Centre) - Yazaki como Administrador de bases-de-dados. Dentro o meu leque de interesses encontram-se todos os temas afins às disciplinas de Matemática, Física e Astronomia. Porém, como entusiasta, interesso-me por temas relacionados com electrónica, poesia, música e fotografia.
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3 respostas a Uma manhã na minha vida

  1. Céu diz:

    "Velhice é mesmo voltar à infância mas, nalguns casos, falta o mimo, a preocupação, o acompanhamento e o amor que uma criança tem. Passa a ser uma infância perdida e só."Convido te a visitar o meu ultimo post "Velhice"!Bom fim de semanaBeijinhos da……………………………(¯`°v°´¯)……………………………..(_.^._)CÉUPara ti:http://i840.photobucket.com/albums/zz321/meuteutempo/ceu5.gif

  2. Júlia diz:

    Sérgio, o que te aconteceu tem acontecido a muito boa gente. Infelizmente, neste país, não só não há empregos como os que há são para as meninas bonitas ou meninos dos papás. Faço uma pequena ideia da revolta que sentiste.

  3. Cláudia diz:

    Bem… Não posso deixar de me deliciar com esta espécie de crónica sobre a pobre e triste realidade tuga, embora seja trágica a situação na sua essência, a forma "crua" como a expões é hilariante. É assim Sérgio, este é o país em que temos, feito de expectativas goradas à nascença, sonhos frustrados, e com caminhos de destino incerto… Aliás deixo aqui um abraço, pq há muito que não sabia nada de ti. E um bom domingo tb.

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