Abandonado


Sóis e luas vêm e vão
Arando a azáfama da noite e dia.
Cansado, ao abandono, em demasia
São aspirações de desejos que não são.
Cresta-lhe a tez morena de um escuro triste
As intempéries com que o tempo, inocente,
Lhe fustiga, de espada em riste,
As entranhas, ao relento, qual demente.
A idade, doença de mão febril,
Irmã dos anos, séculos, milénios, eras
Acarta o mundo sem intento ou ardil.
Só lhe escapam vãs quimeras.
Prostrado na lama (estendida aos pés)
Sobra como ruína de outrora
A branca neve da alvice e, talvez,
Memórias que a hora não levou embora.
Não é injusto o sopro do último alento
Ou se aí se esvai sublime a dignidade.
Somente, insípido, o frio manto do lamento
Lhe abraça, de solidão, sem piedade.
A morte aguarda à porta à espera,
Paciente, a derradeira partida.
Augura alívios, pois só, desespera
As agonias enterrando aquela vida,
Dormida no berço lá fora.

Sobre Sérgio O. Marques

Licenciado em Física/Matemática Aplicada (Astronomia) pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e Mestre em Matemática Aplicada pela mesma instituição, desenvolvo trabalho no PTC (Porto Technical Centre) - Yazaki como Administrador de bases-de-dados. Dentro o meu leque de interesses encontram-se todos os temas afins às disciplinas de Matemática, Física e Astronomia. Porém, como entusiasta, interesso-me por temas relacionados com electrónica, poesia, música e fotografia.
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